
SISTEMA DIGESTÓRIO EQUINO
Paula Gomes Rodrigues
Maria Cláudia Martins Guerra Miranda
Os equinos são mamíferos ungulados membros da ordem Perissodactyla, juntamente com as zebras, asnos, antas e rinocerontes. Algumas das principais características dessa ordem são: desenvolvimento dos dentes, dos membros inferiores (disposição dos ossos cárpicos e társicos) e evolução dos intestinos grossos em câmaras de fermentação.
Equinos e ruminantes possuem hábito alimentar semelhante, entretanto, diferem quanto ao local de degradação microbiológica da fibra (Meyer, 1995). Nos ruminantes os alimentos são degradados no início do trato grastro intestinal: no rúmen, enquanto que nos equinos essa degradação ocorre no ceco, estrutura localizada na porção final do sistema digestório, no intestino grosso.
O sistema digestório dos equinos evoluiu e se adaptou ao comportamento de pastejo e ao tipo de alimento selecionado por esses animais ao longo de milhões de anos. Em estado selvagem, os eqüinos tendem a gastar mais de 80% do seu tempo pastando, além disso, selecionam como alimentos forragens tenras e suculentas, que possuem alta teor de umidade, carboidratos estruturais, lipídeos e proteínas solúveis, porém, com baixo teor de amido (Frape, 2007).
Ao domesticar o cavalo o homem modificou esses hábitos naturais. O homem passou a manter os equinos presos em baias, com um pequeno número de refeições por dia, e sem capacidade de selecionar o alimento. Sua dieta agora é rica em amido, um dos grandes responsáveis pelos transtornos digestivos observados nestes animais.
O sistema digestório ou canal alimentar pode ser dividido, principalmente, em: boca, estômago, intestino delgado e intestino grosso.
Os lábios, dentes e língua dos cavalos são adaptados para preensão, ingestão e alteração da forma física do alimento em um estado que facilite sua mistura com os sucos digestivos e evite compactação ao longo do sistema digestório devido ao tamanho de partícula inadequado.
O lábio superior é forte, móvel e sensível, usado para colocar o alimento entre os dentes. Os lábios servem também de funil através do qual a água é sugada. O cavalo consegue separar as partículas alimentares e deixar componentes não palatáveis através da grande mobilidade dos seus lábios.
A língua do cavalo leva o material ingerido para os molares e pré-molares, onde será triturado. A produção de saliva é intensa e depende do tipo de alimento que o animal está mastigando, quanto maior o teor de fibra maior será a produção. A saliva não apresenta enzimas digestivas, entre suas funções pode-se citar a lubrificação do alimento, protegendo o epitélio do esôfago durante sua passagem até o estômago.
Os cavalos possuem tanto os incisivos superiores quanto os inferiores, o que possibilita que ele paste bem rente ao solo cortando a forragem. Problemas dentários podem causar distúrbios digestivos e cólica diminuindo inclusive a digestibilidade aparente da fibra.
De acordo com Frape (2007), mesmo entre os herbívoros os cavalos e pôneis dependem muito mais de seus dentes que os ruminantes domésticos, já que estes engolem o capim e feno com o mínimo de mastigação, dependendo da atividade ruminal para quebrar a fibra.
O estômago é um órgão pequeno, corresponde a 10 ou 12% de todo o trato gastro intestinal, ajustado para uma recepção contínua de pequenas quantidades de alimento. O esôfago se encaixa de forma obliqua e é essa entrada é guardada por uma válvula muscular extremamente forte: a válvula cárdia. A válvula pilórica ou esfíncter pilórico também é extremamente forte e guarda a saída do estômago do animal, impedindo o retorno da digesta do intestino para o estômago.
Sua anatomia gástrica difere da de outros monogástricos. Quase metade de sua superfície é recoberta por um epitélio escamoso e aglandular, onde ocorre fermentação microbiana devido ao pH menos ácido dessa região, devido à presença da saliva, que atua como solução tamponante. A mucosa glandular é dividida em fúndica e pilórica. A região fúndica é responsável por secretar ácido clorídrico (HCl) e pepsina e a região pilórica pela secreção gastrina (hormônio polipeptídico) na corrente sanguínea.
Os processos digestivos do estômago são concretizados por uma atividade simultânea de enzimas alimentares, microorganismos e o suco gástrico. A maior parte da digesta permanece no estômago por um tempo relativamente curto. Em razão do pequeno tamanho do estômago e do pequeno tempo de permanência da digesta no mesmo, o grau de digestão de proteína é baixo.
O intestino delgado pode ser dividido em duodeno, jejuno e íleo, é um órgão relativamente curto (entre 21 e 25 metros de comprimento) quando considerado o sistema digestório como um todo. Apesar do rápido trânsito da ingesta, a taxa de digestão e absorção dos nutrientes é alta.
No duodeno são secretados o suco pancreático e a bile. Entre suas inúmeras funções pode-se citar o aumento da superfície de contato entre a digesta e as enzimas presentes nesta região, além do tamponamento da região duodenal. Quando a digesta deixa o estômago e chega no intestino delgado apresenta pH extremamente ácido, devido a presença de HCl, ao realizar o tamponamento, tanto o suco pancreático quanto a bile inibem a formação de úlceras duodenais e melhoram a atividade das enzimas presentes nessa região, responsáveis pela degradação dos nutrientes. Esta secreções têm baixa atividade enzimática, fornecendo grandes quantidades de fluido, íons sódio, potássio, cloro e bicarbonato, existe ainda pouca tripsina ativa (Frape, 2007).
No intestino delgado os açúcares, amido, gorduras e proteínas, são degradados através de enzimas (lípases, glicosidases e tripsinas) próprias secretadas pelas células epiteliais da mucosa e absorvidos.
O cavalo sendo um herbívoro precisa de algum mecanismo anatômico que permita o aproveitamento da energia disponibilizada pelas plantas. Nenhum mamífero é capaz de secretar enzimas capazes de quebrar os carboidratos estruturais dos alimentos fibrosos para o aproveitamento de seus nutrientes, somente os microorganismos (protozoários e bactérias) conseguem digerir a fibra através da fermentação, pois possuem altas quantidades da enzima celulase. Estes microorganismos estão presentes no ceco e intestino grosso dos equinos, e no rúmen dos ruminantes.
O número de microorganismos no conteúdo do intestino grosso é semelhante àquele encontrado no rúmen de ruminantes. Sua atividade depende principalmente do tipo e quantidade de substâncias nutritivas provenientes do intestino delgado, da velocidade de trânsito e da capacidade de tamponamento do lúmen.
A fermentação é um processo lento, o que significa que o fluxo de digesta deverá ser reduzido por tempo suficiente para permitir que o processo consiga liberar energia ao animal hospedeiro. O intestino grosso no cavalo é o órgão que teve parte aumentada para acomodar o processo fermentativo, e pode ser dividido em: ceco, cólon e reto.
No intestino grosso ocorre a absorção máxima de água, sais e minerais, além de vitaminas do complexo B (sintetizadas pelos microorganismos) e proteína microbiana.
Grande parte dos problemas digestivos ocorrem no intestino grosso, devido, principalmente, ao inadequado balanceamento da dieta quanto à relação concentrado:volumoso e ao tamanho das partículas, devido à problemas dentários por exemplo.
A intensidade das contrações intestinais aumentam durante a alimentação, porém, durante a dor abdominal esses movimentos podem parar fazendo com que os gases da fermentação se acumulem, causando a cólica.
Comprimento e volume dos órgãos digestivos e tempo de trânsito da dieta (equino com 500 kg de peso corporal adulto).
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Órgãos do sistema digestório |
Comprimento (m) |
Volume (L) |
Tempo de permanência |
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Esôfago Estômago Intestino delgado Ceco Cólon Reto Total |
Até 1,5 - 21 - 25 Cerca de 1 6 - 8 0,2 - 0,3 - |
- 18 64 25 - 35 96 - 212 |
10 -15 segundos 1 - 5 horas 45 min à 1,5 horas 15 - 20 horas 18 - 24 horas 1 - 2 horas 35 - 50 horas |
FONTE: Adaptado de Meyer (1995)
Bibliografia
Frape, D.; Nutrição e Alimentação de Equinos; São Paulo; Editora Roca; Terceira Edição; 602 p.; 2007.
Meyer. H.; Alimentação de Cavalos; São Paulo; Livraria Varela; Segunda Edição; 303p.; 1995.
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