De:

Até:


Artigos

Artigos sobre Nutrição

Uso de volumosos conservados.

USO DE VOLUMOSOS CONSERVADOS NA ALIMENTAÇÃO DE EQUINOS

 

Paula Gomes Rodrigues – Doutoranda em Produção Animal / UFLA

Lucas Ferreira Guerra – Graduando em Zootecnia / UFLA

 

            A produção de forragens de alta qualidade, tendo a sua utilização na forma de pastagens ou sendo conservada através de processos como fenação ou ensilagem, é uma condição básica e crucial na produção de equinos. A boa qualidade presente nas pastagens e nas forragens conservadas permite um manejo animal equilibrado, com suprimento de nutrientes de boa qualidade e com maior estabilidade durante todo o ano.

            Os processos de conservação de forragens podem ser utilizados nos sistemas de produção onde a oferta de volumosos é maior que seu consumo. O excedente da produção de forragens pode ser aproveitado antes que se torne excessivamente maduro e tenha perdas nessa qualidade. As alternativas mais utilizadas para conservação de forragens além das pastagens são a produção de fenos e silagens.

            Com uso crescente de dietas completas, visando facilitar o fornecimento de energia, proteína e fibras, o maior entendimento dos efeitos da variação no consumo diário de volumosos e concentrados assume um papel importante na nutrição de equinos. Essas variações causam mudanças significativas no ecossistema gastrintestinal, podendo levar a alterações na digestibilidade das dietas e a consequências fisiológicas traumáticas nos animais (Miraglia et al., 2006).

            A qualidade nutricional e física da forragem oferecida aos animais sob forma conservada é muito diferente daquela obtida em condições ótimas de pastejo, onde os animais podem exercer livremente sua seletividade (Dittrich et al., 2007).

            Lamoot et al. (2004) relataram que, da mesma forma que outros herbívoros, os cavalos podem utilizar pastagens desuniformes para seu pastejo, despendendo mais tempo de pastejo em pastos mais baixos. Outro comportamento marcante ocorre em pastagens onde há a presença de áreas definidas para deposição das fezes, chamadas de "latrinas", que são evitadas para o consumo da forragem ali presente. Esse comportamento alimentar altamente seletivo de cavalos em pastagens tem sido interpretado há tempo como uma estratégia de controle de endoparasitas.

            Fleurance et al. (2005) concluíram que a seletividade de forragem pelos cavalos em pastejo é mais influenciada pela qualidade nutricional dessa forragem do que pela presença de fezes e parasitas nessa pastagem. Destacam que a preferência de consumo recai em pastagens que oferecem melhores estandes e com maiores benefícios nutricionais, a despeito dos riscos parasitários ali presentes. Nas condições do experimento realizado, a seleção de forragens nutritivas superou a seleção por forragens sem riscos parasitários. A expectativa de que cavalos evitariam pastagens contaminadas com fezes foi confirmada apenas para as de menor altura e com menor disponibilidade forragem de qualidade, onde o benefício nutricional das áreas com e sem contaminação foi o mesmo. Assim, animais com histórico de presença de parasitas correriam mais riscos para obter benefícios nutricionais do que os não parasitados.

           

Uso e consumo de silagens

 

            Em sua recente revisão sobre os métodos para avaliação da qualidade de forragens conservadas, Jobim et al. (2007), destacam a importância do uso de tecnologias para esse fim e apresentam tecnologias em uso ou em desenvolvimento para avaliação da qualidade dos alimentos volumosos e das possíveis perdas durante o processo de produção e no armazenamento. Para uso do conceito de "forragem de qualidade", afirmam que para determinação do valor nutritivo de uma forragem, sempre devem ser consideradas em conjunto as características físicas e bromatológicas dos alimentos, bem como a interação entre seu consumo pelo animal e o desempenho em produção desse mesmo animal. Em relação a silagens, os autores apresentam uma série de metodologias e equipamentos, mas para as forragens desidratadas, basicamente os fenos, observam poucos avanços metodológicos relativos à avaliação da sua qualidade, constatando serem raros os trabalhos com avaliação das alterações em qualidade ocorridas durante o processo.

            Algumas observações sobre o uso de silagens usando espécies do gênero Cynodon são apresentadas por Evangelista & Lima (1999). Os autores destacam que o ideal seria produzir feno ou utilizar essa espécie para pastejo. A produção de silagem apenas seria válida como estratégia de manejo de campos de feno, se as condições climáticas não permitissem a execução do processo de fenação.

            O uso de silagens para equinos ainda levanta suspeita como causadoras potenciais de problemas neurológicos, pelo fato de estarem erradamente associadas a uma presença constante de fungos e contaminação por micotoxinas.

            Ricketts et al. (1984), ressaltaram a presença potencialmente grave de bactérias em silagens conservadas sob condições inadequadas em silos plásticos. Condições de fermentação não apropriadas das forragens, não proporcionam um controle ambiental adequado para prevenir o desenvolvimento de bactérias do gênero Clostridium, possibilitando assim a presença de suas toxinas nos silos.

            Ainda são escassas as informações sobre micotoxicoses em equinos e não estão claros os efeitos aditivos ou sinergísticos da associação de duas ou mais toxinas em um alimento (Hanche-Olsen et al., 2008). Os autores sugerem a realização de trabalhos nessa área, considerando-a como um desafio importante que forneceria informações de como fornecer silagem aos equinos de maneira segura.

 

Uso e consumo de fenos

 

            O feno é uma forma de conservação de forragens que facilita o manuseio desse alimento volumoso, tem presença constante e disponibilidade no mercado físico e apresenta um bom valor nutritivo quando bem elaborado e armazenado. As atividades de manejo do feno adquirido ou produzido na propriedade devem sempre ter em vista a qualidade nutricional, a segurança alimentar e o bem estar animal.

            A qualidade nutricional dos fenos em termos de energia e proteína, bem como as restrições relativas ao seu consumo devem ser cuidadosamente observadas. Um cavalo adulto com peso de 600 kg e consumindo cerca de 2 a 2,5% do seu peso corporal em matéria seca, ingere em média 6 a 7 kg de feno diariamente. Essa é uma quantidade significativa e que interfere diretamente na ingestão de diversos nutrientes. Uma dieta produzida com fenos de boa qualidade poderá suprir a demanda de animais adultos em manutenção ou pouca atividade.

            A aparência externa de um feno, mesmo parecendo adequada, nunca deve ser um requisito único para a decisão sobre a qualidade ou classificação desse feno. Uma análise bromatológica realizada com protocolos de amostragem corretos e significativos para um determinado lote poderá mostrar seu valor nutricional comparativo aos padrões adotados. Análises como proteína bruta, fibra insolúvel em detergente neutro, fibra insolúvel em detergente ácido, nitrogênio ligado à fração fibrosa e concentração de minerais (cálcio, fósforo, potássio, magnésio) devem ser realizadas a fim de manter o controle da qualidade do alimento adquirido ou produzido. Tabelas com valores sugeridos para cada parâmetro de qualidade de fenos são apresentadas pelo NRC (2007) e por Carvalho et al. (1992).

            Para as atividades ligadas à produção de volumosos, a produção de informações técnicas ainda é relativamente escassa, bem como a aplicação de ações corretivas nos processos. Como possíveis causas de variação de peso entre fardos produzidos em uma mesma área foram indicados: a heterogeneidade da produção dentro das áreas, a falta de dimensionamento operacional, restrições na operação de revolvimento da forragem, leiras de forragem com densidade desuniforme e limitações dos equipamentos.

 

Considerações Gerais

 

            Embora os requerimentos nutricionais do equinos estejam estabelecidos em termos de proteína, energia, vitaminas e minerais, Jackson (1996) afirma existir uma grande variação nessa demanda em função de características individuais e para cada uso de animal, concluindo que diferentes animais podem ganhar ou perder peso quando alimentados seguindo essas recomendações. Como exemplo, Vervuert et al. (2005) citam a baixa repetibilidade nos experimentos com equinos, em termos de resposta às mesmas dietas sob condições experimentais idênticas.

            As pesquisas sobre as formas de conservação e uso dos alimentos volumosos devem buscar maior precisão nos seus resultados pelo aumento no número de animais experimentais, pela melhoria na seleção dos indivíduos e pela padronização eficiente das condições ambientais, usando os parâmetros técnicos mais adequados para avaliar os efeitos dos tratamentos e metodologias que possam ressaltar as diferenças entre eles.

            Em relação ao uso de novas fontes de alimentos fibrosos, Miraglia et al. (2008) mostram que pode haver uma redução na digestibilidade da fibra quando ela tem origem em subprodutos como polpa cítrica ou de maçã. Assim, o uso de dietas mistas ricas em fibra dietética ou os chamados "concentrados dietéticos", deve ser bem analisado antes de sua difusão.

            O uso de volumosos conservados na nutrição de equinos, seja na forma de fenos ou silagens, deve sempre compreender a fisiologia, a presença de uma ativa microflora intestinal e as características de consumo desses animais, considerando no estabelecimento do manejo a sua anatomia peculiar e as necessidades de atividade física e relacionamento grupal.

 

Referências Bibliográficas

 

CARVALHO, R.T.L.; HADDAD, C.M.; DOMINGUES, J.L. Alimentos e alimentação do cavalo. Piracicaba: LC. Consultores Associados. 1992. 130 p.

 

EVANGELISTA, A.R; LIMA, J.A. [1999]. Silagem de espécies do gênero Cynodon. Lavras: UFLA, Boletim Técnico, 86.

 

REIS, R.A.; MOREIRA, A.L.; PEDREIRA, M.S. Técnicas para produção e conservação de fenos de forrageiras de alta qualidade. SIMPÓSIO SOBRE PRODUÇÃO E UTILIZAÇÃO DE FORRAGENS CONSERVADAS, 2001, Maringá.Anais. Maringá: UEM/CCA/DZO, 2001. 319p.  

 

DOMINGUES, J. L. Uso de volumosos conservados na alimentação de eqüinos. R. Bras. Zootec. vol.38 no.spe Viçosa Julho 2009. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S151635982009001300026&script=sci_arttext&tlng=ES

<- Voltar

Cavalo do Sul de Minas - todos direitos reservados.