
Maria Claudia Martins Guerra Miranda
Paula Gomes Rodrigues
Fala-se freqüentemente em stress relacionado ao cavalo de competição; é importante que todas as pessoas envolvidas compreendam as implicações do stress - tão falado, nem sempre compreendido.
Em competição, todos os cavalos estão sujeitos a stress, e possivelmente aqueles que melhor o toleram são aqueles que conseguem as melhores classificações. Cavaleiro e treinador precisam ter noção do nível de stress a que cada cavalo pode ser submetido sem que venha a sofrer danos permanentes. É preciso ter em mente que o stress é uma resposta natural e normal às variações diárias do meio-ambiente. Dentro de limites, a reação ao stress ajuda, pois ela garante que haja respostas de adaptação - significando que, quando o animal for novamente submetido àquela mesma situação, o nível de stress por ela gerada será menor devido à adaptação anterior.
O exemplo mais óbvio da carga de stress à qual um cavalo é exposto durante o treinamento é um aumento progressivo da carga de trabalho. Um novo nível de stress é introduzido a cada vez que o cavalo é trabalhado, levando a um nível de condicionamento compatível com determinada intensidade de exercícios. Em outras palavras, o stress é uma parte necessária e desejável de todo programa de treinamento correto. Entretanto, se o nível de stress causado for acima do que pode ser tolerado por determinado cavalo naquele instante, o animal se tornará excessivamente estressado - obviamente, uma ocorrência indesejável.
Muitos cavalos atletas estão sujeitos ao stress de repetidas competições - treinador e cavaleiro precisam ter em mente que isto significa não apenas o stress do evento esportivo, porém também aquele relacionado às pressões psicológicas - viagem, presença de público, estabulagem em lugar desconhecido etc. A competição envolve também o agrupamento de grandes populações de cavalos, alguns dos quais podem estar sofrendo de doenças, sejam evidentes ou sub-clínicas. O stress crônico reduz a resistência do cavalo a doenças, o que explica, por exemplo, porque tantos cavalo sucumbem a infecções virais. Isto acontece muito em cavalos de corrida, quando o animal está sujeito ao stress da competição enquanto ainda se encontra na fase de crescimento.
Podemos considerar que a maioria das condições estressantes impostas aos cavalos de concurso são causadas por falta de conhecimento ou de habilidade por parte dos responsáveis pelo animal. Como resultados, encontramos manejo, treinamento e equitação deficientes, exacerbando o stress já enfrentado pelo cavalo. É preciso ter conhecimento do nível de stress com que cada cavalo pode lidar, e tratá-lo de acordo. É aqui que o treinamento de cavalos deixa de ser uma ciência para se tornar também uma arte – muitas pessoas são capazes de colocar um cavalo em forma, porém apenas algumas de mantê-lo em forma.
Como Reduzir o Stress
O aquecimento do cavalo sempre precisa ser feito criteriosamente. Os músculos devem ficar alongados, com o cavalo atento e se movimentando livremente. O aquecimento excessivo causa cansaço desnecessário ao cavalo, usando reservas valiosas de energia; a falta de aquecimento significa que o animal terá que competir com os sistemas orgânicos pouco preparados, o que aumenta a possibilidade de lesões.
O cavalo deve ser submetido a uma avaliação criteriosa, com o conhecimento do nível de condicionamento do animal, e em que velocidade ele trabalha melhor em cada andadura. Assim, ele poderá ser trabalhado para obter a melhor performance sem ser excessivamente estressado. Conforme o nível de esgotamento do cavalo, a velocidade precisa ser ajustada. Cavaleiro e veterinário precisam avaliar em conjunto até que ponto o animal está apto a continuar na prova.
Intervalos entre as fases de uma prova precisam ser bem aproveitados. O cavalo deve ser mantido em leve movimento, tal como caminhar 20 metros a cada minuto, ao mesmo tempo sendo mantido num lugar fresco e sombreado, e resfriado com água fria. Após a verificação de temperatura corporal, pulso e respiração, o cavalo poderá tomar um pouco d’água. Também é preciso fazer ajustes e eventuais substituições no arreamento.
Em viagem, o cavalo deverá ser acompanhado de sua alimentação normal. Isto evita que alterações súbitas na dieta do animal possam causar perturbações no sistema digestivo ou queda do apetite - a qual já é apresentada pela maioria dos cavalos estressados. Nestas condições, uma mistura de farelo de trigo pode ser útil.
A rotina das competições deve ser o mais próxima possível àquela mantida em casa. Os cavalos são criaturas de hábito, que gostam de sua rotina. Deve-se permitir ao cavalo que relaxe tanto quanto possível durante as competições. Uma das maneiras de conseguir isto pode ser deixá-lo pastar à mão.
No dia seguinte, o animal precisa ser submetido a um exame completo, principalmente do aparelho locomotor: inspecionar pernas, trotar o cavalo na mão, se possível soltá-lo para pastar. Um aumento da temperatura corporal pode indicar início de doença. Os cavalos enfraquecidos pelo stress do esforço físico são mais suscetíveis a doenças.
Durante as viagens, uma série de precauções precisa ser tomada, com uso de protetores em pernas e cauda, e eventualmente na nuca. O motorista precisa ter experiência na condução de cavalos. As viagens podem ser exaustivas para um cavalo cansado, e se o trecho a percorrer for mais longo, é importante fornecer água periodicamente aos animais, bem como permitir que eles se movimentem um pouco no caso de um pernoite. A hidratação nas viagens é muito importante - a falta de água pode causar impactação intestinal e cólica.
A aderência a estes procedimentos antes, durante e após a competição irá ajudar a minimizar o stress mental e físico a que o cavalo é exposto, assim permitindo-lhe ter uma vida útil mais longa e com certeza mais coroada de sucessos.
Referências bibliográficas
HONTANG, Maurice. A psicologia do cavalo – 1; inteligência e aptidões; tradução Aristeu Mendes Peixoto; – RJ: Globo, 1998 (Coleção do agricultor. Equinos)(Publicações Globo Rural).
HONTANG, Maurice. A psicologia do cavalo – 2; metodologia do trabalho; tradução Aristeu Mendes Peixoto; – RJ: Globo, 1998 (Coleção do agricultor. Equinos)(Publicações Globo Rural).
ANDRADE, Lúcio Sergio de. Condicionamento do cavalo no Brasil, trabalho, competição, reprodução, Recife, Pernambuco, 1986.
www.criareplantar.com.br/pecuaria/zootecnia/equino
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