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Anatomia dos Órgãos Genitais da Égua

 

Por Maria Claudia Martins Guerra Miranda

 

Vulva

Segundo Ley (2006) a genitália externa da égua é composta pela vulva, vestíbulo e vagina. A vulva é a porção do trato genital comum aos sistemas urinário e reprodutivo. Inclui dois lábios, o clitóris e seus seios, a fossa e a glande. A abertura externa da vulva, ou fenda vulvar, tem aproximadamente 12-15 cm, sendo contornada por lábios. A pele é fina, elástica, geralmente pigmentada, rica em glândulas sebáceas e sudoríporas. O clitóris é o homólogo do pênis, sua glande mede cerca de 2,5 cm de diâmetro e é recoberta por uma prega de pele, sendo cercada pela fossa do clitóris.  O corpo do clitóris tem cerca de 5 cm de comprimento, e esta fixado ao arco isquiático. Seu corpo cavernoso contém tecido erétil. Tanto a vulva quanto o clitóris são vascularizados a partir dos vasos pudentos internos.

 

Vestíbulo

 

O vestíbulo é a porção tubular da vulva que conecta os lábios com a vagina. A parede dorsal do vestíbulo e mais curta em relação à parede ventral, havendo um declive ventrodorsal. O bulbo vestibular é uma massa de tecido erétil, de aproximadamente 3x7 cm, que fica próximo aos lábios vaginais. A prega transversa é um resquício do hímen e delimita a linha de fusão entre as partes do trato reprodutivo de origem mesodérmica e ectodérmica (Ley, 2006)

 

Vagina

 

A vagina tem aproximadamente 20 cm de profundidade. O fórnix vaginal é um recesso anular formado pelas paredes vaginais e pelo orifício externo da cérvix uterina. A membrana da mucosa vaginal é aglandular, seus tecidos são fibroelásticos, o que permite a passagem do potro durante o parto. É cercada por tecido conjuntivo frouxo, que contem gânglios simpáticos – supridos pelos ramos dos plexos renal, aórtico, uterino e pélvico – um plexo venoso e tecido adiposo (Ley, 2006).

Segundo Ley (2006) a membrana da mucosa vaginal e a parede vaginal são destituídas de sensibilidade nervosa, já que esta não possui inervação motora.

Existem diferenças nas alterações vaginais durante o ciclo estral que se refletem, provavelmente devido aos diferentes níveis de secreção de estrógeno, progesterona e ate mesmo de gonadotrofinas. Porem, os esfregaços vaginais não servem para diagnosticar as fases do ciclo estral (Hafez, 2004).

Hafez em 2004 diz que, as contrações vaginais, do útero e do oviduto são importantes para o transporte espermático e são ativadas pelo fluido secretado na vagina durante o estímulo pré-coital. O fluido vaginal é composto de transudato da parede vaginal, secreções vulvares das glândulas sebáceas e sudoríporas, muco cervical, fluido endometrial e tubário e células do epitélio vaginal. À medida que o animal entra em cio, ocorre o aumento da vascularização vaginal, tornando o fluido mais fino.

As funções da vagina na reprodução são múltiplas, é o órgão copulatorio onde o sêmen e depositado e coagulado; reservatório de sêmen dos depósitos cervicais; suas dobras e estrutura muscular permitem a distensão da vagina durante a cópula; sua parede absorve o plasma seminal que não foi expelido; serve como ducto excretor das secreções da genitália interna; via natural para o parto. Essas funções são cumpridas pelas características fisiológicas, através da contração, expansão, involução, secreção e absorção (Hafez, 2004).

 

Cérvix

 

A cérvix é uma estrutura semelhante a um esfíncter. É um órgão fibroso, composto por tecido conjuntivo e pequenas partes de tecido muscular liso, que formam uma parede espessa e um lúmen constrito (Hafez, 2004). A mucosa da cérvix é mais pálida que a mucosa uterina (Ley, 2006)

O canal cervical é caracterizado por várias proeminências, sendo altamente pregueada, na égua, são características as dobras da mucosa e as alças que se projetam para dentro da vagina. Ela permanece compactamente fechada, exceto durante o cio, quando relaxa levemente para permitir a passagem dos espermatozóides para o útero. O muco que sai da cérvix e expelido pela vagina. (Hafez, 2004)

Segundo Hafez (2004), a cérvix possui várias funções no processo reprodutivo:

a)     Facilita o transporte espermático através do muco cervical para o interior do útero;

b)    Atua como reservatório de espermatozóides;

c)     Seleção de espermatozóides viáveis, pois impede a passagem de células espermáticas defeituosas ou inviáveis;

d)    Sua composição bioquímica é alterada durante a gestação para se adaptar às suas novas propriedades funcionais;

e)     Aumenta até 8 vezes de tamanho durante a gestação devido ao aumento da vascularização e nas concentrações de glicoproteínas;

f)     Atua ativamente na atividade bioquímica que envolve o parto – processos anabólicos.

 

Útero

 

O útero é composto por dois cornos uterinos, um corpo e uma cérvix (colo). Na égua ocorre a presença de um útero bipartido, onde um septo separa os dois cornos de um proeminente corpo uterino (Hafez, 2004).

Já Ley (2006) descreve o útero da égua como corpo e cornos em formato de T ou Y. O corpo é cilíndrico, situado parcialmente na cavidade abdominal e parcialmente na pélvica. É liso e tem cerca de 18-20  cm de comprimento com uma superfície endometrial similar à dos cornos uterinos. Um septo curto intra-uterino delimita a bifurcação entre os cornos e seu ligamento intercornual é menos proeminente que o de vacas e não deve ser utilizado como forma de retração do útero. Os cornos por sua vez estão dentro da cavidade abdominal, medindo cerca de 20-25 cm no estado não gestante. Costumam ser simétricos, mas depois de sucessivas gestações perdem essa simetria. O diâmetro do corno uterino é menor na parte cega e aumenta progressivamente ate chegar à junção com o corpo do útero.

O ligamento largo liga o corpo e cornos uterinos à parede abdominal e pélvica. O mesométrio (parte do ligamento largo) continua na superfície livre dos cornos, e o ligamento redondo do útero esta numa prega ao longo da margem lateral do mesométrio (Ley, 2006).

O lúmen do útero é obliterado pela pressão intra-abdominal ao redor, de cinco a dez camadas endometriais ocupam o lúmen, desde o corpo até a junção uterotubária. Internamente o lúmen de cada corno termina no óstio da tuba uterina, formando uma pequena papila nessa abertura (devido a um esfíncter de músculo liso circular) o que forma uma válvula eficaz na égua que previne a entrada de conteúdo do lúmen uterino na tuba uterina. O suprimento vascular dos cornos uterinos provêm: do ramo uterino da artéria vaginal, da artéria uterina e do ramo uterino da artéria ovariana. A drenagem venosa do útero e cornos é feita principalmente pelo ramo uterino da veia ovariana. Ley (2006) ainda discorre sobre a não inervação sensitiva do útero. 

Segundo Hafez (2004) o volume e a composição bioquímica do fluido uterino varia durante o ciclo estral, isso ocorre porque às glândulas endometriais, mudam morfologicamente durante o cio devido ao aumento de progesterona produzido pelo corpo lúteo em desenvolvimento e, que regridem quando ocorrem a regressão luteínica. Outra particularidade do útero é a variação protéica que ocorre durante o ciclo reprodutivo, essas diferenças de concentração e distribuição dos componentes nos fluidos uterinos evidenciam a ocorrência de secreção e transudação.

As contrações do útero são coordenadas por movimentos rítmicos do oviduto e ovários. Durante o ciclo estral, a freqüência dessas contrações atinge o grau máximo durante e imediatamente após o cio. Durante o cio as contrações ocorrem principalmente do oviduto para o útero e após o cio – fase luteínica – ocorre poça contração em direção aos ovidutos. Altos níveis de progesterona são observados quando a atividade contrátil é quiescente (Hafez, 2004).

Os hormônios ovarianos desempenham importante papel na regulação do metabolismo uterino. O útero apresenta diversas funções essenciais à reprodução:

a)     Transporte dos espermatozóides do ponto de ejaculação até o local de fertilização no oviduto – contrações do miométrio. Um grande número de espermatozóides se agregam às glândulas endometriais e, à medida que são transportados ao longo do lúmen uterino ate o oviduto, sofrem a capacitação espermática;

b)    Regulação da função do corpo lúteo – o útero tem função importante na regressão luteínica, o próprio corpo lúteo estimula o útero a produzir a substancia que o destruirá;

c)     Inicio da implantação, gestação – útero é um órgão altamente especializado, adaptado para aceitar e nutrir os produtos da concepção, desde a implantação até o parto. Para que ocorra a implantação deverá ocorrer uma “diferenciação” uterina governada pelos hormônios esteróides ovarianos para que o útero aceite seletivamente o blastocisto. Após a implantação o embrião ira depender de um suprimento vascular para seu desenvolvimento que são providos endométrio através de suas propriedades fisiológicas e seu suprimento sanguíneo. O útero modifica seu tamanho, estrutura e posição para acomodar as necessidades do concepto em crescimento;

d)     Parto e involução pós-parto – ate o parto, a atividade contrátil do útero é pequena, quando então desempenha importante papel na expulsão fetal. Após o parto o útero regride ao seu tamanho e condição normal – involução uterina.

 

Oviduto

 

Segundo Hafez (2004) existem uma grande relação anatômica entre oviduto e ovário. Nos mamíferos domésticos, o ovário situa-se em uma bolsa ovárica aberta, que em eqüinos é estreita, semelhante a uma fenda e envolve somente a fossa de ovulação.

O comprimento e o grau de circunvoluções do oviduto variam nos mamíferos domésticos, Hafez (2004) considera que o oviduto pode ser dividido em 4 partes: fímbrias (formato de franjas – são livres, exceto no ponto que se liga ao ovário), infundíbulo (abertura em formato de funil próxima ao ovário), ampola (porção dilatada do oviduto que corresponde a cerca de metade do comprimento do oviduto)  e istmo (estreita porção do oviduto ligada ao lúmen uterino – penetra no corno uterino da égua na forma de uma papila).

Já Ley (2006) considera que ele pode ser dividido em 3 partes: istmo, ampola e infundíbulo. Tem comprimento total de 20-30 cm, sendo que a ampola representa mais da metade desse total. A ampola é altamente tortuosa, tem lúmen expandido, com cerca de 6 mm de diâmetro, já o istmo é reto e tem diâmetro de 2-3 mm. A transição da ampola para o istmo é gradativa. A divisão do infundíbulo para a ampola ocorre no ostio abdominal. O infundíbulo tem formato de funil, e, em sua margem ocorrem as pregas (fímbrias) que se fixam no ovário em um ponto. As fimbrias remanescentes se espalham sobre o ovário para cobrir a fossa ovulatoria.

As células ciliadas do oviduto tem o ritmo de pulsação dos cílios afetada pelos níveis de hormônios ovarianos, com atividade máxima durante ou logo após a ovulação. A percentagem de células ciliadas diminui gradualmente na ampola em direção ao istmo e alcança seu máximo na fimbria e no infundíbulo. Sendo mais abundantes na região onde o óvulo é captado, acima da superfície ovariana. A pulsação dos cílios ocorre em direção ao útero, o que mantem o óvulo em constante rotação no oviduto, o que é essencial para que ocorra a junção de óvulo e espermatozóide e não permita que ocorra a implantação no próprio oviduto. Já as células não ciliadas tem a função de secretar um muco cujas funções são: capacitação e hiperativação espermática, a fertilização e desenvolvimento precoce da pré-implantação (Hafez, 2004). Essas células, no momento da ovulação secretam uma substancia mucoide basofilica viscosa que tem função de revestir o óvulo e as células da coroa radiata. Essa substancia é liberada com o óvulo, na ovulação e penetra no óstio uterino. O óvulo só se separa dessa massa dois dias após a ovulação (Ley, 2006).

As contrações do oviduto ajudam a desnudar o óvulo, promovem o contato entre o óvulo e o espermatozóide e regulam parcialmente o transporte do ovo. O peristaltismo do oviduto tende a atrasar ligeiramente o óvulo ao invés de transportá-lo (Hafez, 2004)

Um fenômeno incomum que ocorre em éguas é a retenção de óvulos não fertilizados em seus ovidutos. Isso ocorre dentro e próximo à junção da ampola com o istmo. Essa retenção cumulativa de óvulos não fertilizados pode ser o motivo de éguas com exames de capacidade reprodutivas normais falharem na concepção (Ley, 2006).

 

Ovários

 

O ovário é encontrado na cavidade abdominal. Ele desempenha funções exócrinas (libera óvulos) e endócrinas (esteróidogenese). Os folículos primordiais são formados no nascimento do feto feminino, a partir dos óocitos primários. (Hafez, 2004)

O ovário esta totalmente suspenso dentro da cavidade abdominal, sendo facilmente movimentados dentro do abdômen, levando-se em conta a extensão limitada (Ley, 2006). O formato e o tamanho do ovário variam de acordo com a espécie e fase do ciclo estral. Em eqüinos tem formato de feijão devido à presença de uma fossa de ovulação definida e uma incisura na borda unida do ovário (Hafez, 2004) Ley (2006) considera que o tamanho do ovário eqüino varia conforme a estação do ano e o estágio do ciclo estral. Normalmente, o ovário de égua terá entre 70-80 mm de comprimento por 40-60 mm de largura.

Segundo Ley (2006), cada ovário possui 2 superficies – medial e lateral, duas bordas – livre e fixada e duas extremidades – caudal e cranial. Para Hafez (2004), a porção livre do ovário que não esta presa ao ligamento largo fica exposta e saliente na cavidade abdominal e, segundo Ley (2006) essa porção é chanfrada ou acentuadamente côncava, o que pode ser percebido por palpação, é chamada de fossa ovulatoria. O ovário é composto por medula e córtex e é envolto pelo epitélio superficial (Hafez, 2004). A estrutura histológica e a embriogênese do ovário eqüino são únicas entre os animais domésticos. O ovário maduro tem uma zona periférica de tecido conjuntivo colagenoso (medula) ao redor de uma zona central parenquimatosa (córtex) contendo folículos ovarianos em desenvolvimento e em atresia, corpos lúteos e corpos albicans. O epitélio germinativo do eqüino esta confinado na fossa ovulatória do ovário adulto. A zona parenquimatosa emerge da fossa ovariana e, durante a foliculogenese, folículos de Graaf se movem em direção à fossa, onde a ovulação ocorre em todos os casos (Ley, 2006).

A vascularização do ovário modifica-se de acordo com as diferentes situações hormonais. A distribuição intra-ovariana de sangue é alterada durante o período pré-ovulatório. As modificações hemodinâmicas parecem ser importantes no controle da função e duração do corpo lúteo. Modificações no fluxo sanguíneo precedem o declínio na secreção de progesterona, enquanto a regressão do fluxo sanguíneo ovariano causa a regressão do corpo lúteo prematuro (Hafez, 2004).

 

Referências Bibliográficas

 

HAFEZ, E. S. E.; HAFEZ, B. Reprodução Animal [Tradução Renato Campanarut Barnabe] – Barueri, São Paulo : Manole, 2004.

 

LEY, W. B. Reprodução em Éguas: Para Veterinários de Eqüinos: [Tradução Clarisse Simões Coelho, Vinícius Ricardo Cunã de Souza] – São Paulo : Rocca, 2006.

 

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