
Historicamente no Nordeste a modalidade eqüestre preponderante é a vaquejada. Estando enraizada em nossa cultura, afinal foi pela pecuária que os europeus colonizaram nosso país, sendo o Nordeste brasileiro a porta de entrada.
A lida diária de nossos avoengos ficou marcada na memória de nossos antepassados. Sendo o vaqueiro uma figura lendária para o nosso povo, versão nordestina do medieval cavaleiro europeu no Brasil.
Esta imagem cultuada por todas as famílias sertanejas foi transmitida a cada geração, chegando até nossos dias atuais. Antes um ofício, meio de vida, na guerra pela sobrevivência. Atuava em mata fechada, entre paus e espinhos, aproveitando pequenos tabuleiros (áreas abertas, sem vegetação) para derrubar o boi, curando suas feridas, deixando a marca ("ferro") do proprietário como forma de identificar seus animais numa época desprovida de cercas limites, pastagens abertas.
Em tempos remotos a fama dos grandes vaqueiros percorria os sertões. Sendo comum o enfrentamento dos campeões. As disputas ocorriam diante de um público reduzido, restrito aos próprios competidores no meio da caatinga (vegetação do sertão).
Mas o tempo foi inexorável também para estes bravos homens, envelhecendo-os. Talvez pela nostalgia da mocidade, os fazendeiros puxaram as disputas para os terreiros de suas fazendas, aos olhos de suas famílias.
O gado saía do curral, quando não era derrubado logo na saída, ganhava a mata. Ficando a disputa sem os aplausos e vibrações de seus empolgados expectadores.
Cercas delimitaram o espaço de competição, surgia à vaquejada "pé de mourão". Onde o vencedor era aquela que mais rapidamente colocava o boi no chão. Posteriormente, veio a vaquejada “de faixas”. Ao invés de explosão e rapidez extrema, é exigida a habilidade. O espaço entre as duas faixas representa os tabuleiros.
Uma modernização que não tira o brilho do passado, pelo contrário, ainda hoje cada vaqueiro legítimo ama seu cavalo, respeita o gado, reverencia seus ancestrais.
Da mesma forma é assim que foi encarada a chegada dos três tambores e das seis balizas em nosso estado.
Na mata de outrora a corrida para pegar o boi não se restringia a segura-lo pelo rabo, derrubando-o. Também se fazia necessário desviar com maestria das árvores, contornando rapidamente os obstáculos na busca pelo gado. O desvio dos troncos não se assemelha a prova de Seis Balizas !? As curvas rapidamente feitas quando identificavam a presença do animal em lugar oposto ao que se dirigiam difere das viradas nos Três Tambores !?
Estas modalidades vieram para somar, não para dividir com a vaquejada moderna. São complementos do que cultuamos ! Pois nelas são testadas outras habilidades exigidas aos nossos antepassados na outrora lida do gado.
Além disto, trazem o benefício de usufruirmos da magia de ver nossas crianças e mulheres também disputando acirradamente, com a garra e a coragem inerentes aos sertanejos nordestinos. Saem da torcida e entram na pista de prova. A família fica mais unida, pois temos os mesmos sentimentos vivenciados a cada treino, a cada disputa.
Foi com este entendimento que um grupo de vaqueiros resgatou as mencionadas modalidades eqüestres para o Ceará, após quase duas décadas de ostracismo. Com muita garra e determinação, honrando o espírito sertanejo, superaram os obstáculos, as descrenças próprias de todo início.
Na busca contínua pelo aprimoramento nos filiamos a NBHA (National Borrel Horse Association), maior associação esportiva na modalidade de três tambores do mundo. Hoje somos a NBHA-Ceará, estando nosso estado sintonizado com os grandes centros esportivos, intercâmbio que somente renderá bons resultados. Nossos animais agora são ranqueados nacionalmente, adquirindo maior visibilidade, e, por conseguinte, maior valorização financeira. Nossos associados estão habilitados a disputar provas homologadas, podendo adquirir credenciamento para representar o Ceará em provas nacionais, como também o Brasil em mundiais.
O espírito competitivo é próprio do cearense, mais ainda do sertanejo. O nível técnico mais apurado é uma questão de tempo, pois estamos recebendo orientações de grandes profissionais; Carijó, André Mori, e o campeão mundial André Coelho.
Temos excelente parque genético, animais selecionados com afinco pelos grandes criadores do Ceará: Rafael Leal (Haras Primavera), Cláudio Rocha (Haras Claro), Artenízio Leite (Haras New Cruxaty), Napoleão Viana (Fazenda Garrote), Joseron Vasconcelos (Fazenda Nordeste), Marcos Lima (Haras Integral), Moacy Maia (Haras Trapiá).
Conforme atestado pelo Dr.Marcelo Delchiaro (Presidente da NBHA-Brazil), estamos com uma infra-estrutura excelente para promover grandes competições. Inclusive com uma pista totalmente coberta. Fazendas, haras e parques com pistas dentro do padrão oficial, ambientes bucólicos, espaço para receber confortavelmente grande público.
Por tudo o acima citado é que podemos assegurar que cresceremos nestas modalidades. Mas sem pressa, não existindo ansiedade alguma, pelo contrário, muita cautela e prudência.
"Vaqueiro não dá murro em ponta de faca !"
Alexandre Fontelles
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