
Por Rodrigo Coelho de Almeida
(http://pitamarissa.wordpress.com)
A ancestralidade do Lusitano está cientificamente comprovada! Com esta constatação acaba-se com um diz que disse, de contornos dúbios, que tiveram o seu esplendor máximo na negação da existência do Cavalo Ibérico, proferida pelo autor espanhol Juan Carlos Altamirano, no seu livro O Cavalo Lusitano: origem e história. Resta agora a todos os intervenientes da raça Lusitana, enveredar pela manutenção e melhoramento da selecção do cavalo Ibérico, nos termos da nossa história, isto é, na versão moderna e actual do melhor cavalo de Guerra do Mundo.
Está comprovada a Ancestralidade do cavalo Lusitano
Um estudo levado a cabo pelo Centro UCM-ISCIII de Investigação sobre evolução e Comportamentos Humano – Departamento de Paleontologia da Universidade Complutense de Madrid –, conduzido por Jaime Lira com a colaboração de outros investigadores, demonstrou, após análise do DNA mitocondrial (mtDNA) retirado de amostras referentes a 22 equinos Ibéricos, encontrados em escavações arqueológicas levadas a cabo em Espanha (El Portalón de Cueva Mayor; Cova Fosca), cujas técnicas de datação cronológica permitiram catalogá-las como pertencentes ao Neolítico, Idade do Bronze e Idade Média, que no actual efectivo equino da Península Ibérica, apenas o cavalo Lusitano possui uma sequência genética com rastreabilidade (através do mtDNA) possível até ao Neolítico e Idade do Bronze.
Conclui o estudo que a continuidade verificada no presente, pode ser explicada pela utilização de éguas locais no tempo da domesticação.
Quanto ao restante grupo de equinos pertencente à península Ibérica, caracterizado enquanto grupo D1 (onde se encontra o Pura Raça Espanhola), concluiu-se que provavelmente terá sido introduzido na Península Ibérica em tempos posteriores (Idade Média), lançando-se a hipótese de esta migração ter ocorrido a partir do Norte de África.
Relativamente ao grupo dos Sorraias não foi estabelecido relacionamento genético com os equinos do Neolítico e da Idade do Bronze. Esta consideração não suporta a tese do cavalo Sorraia como uma raça primitiva e afecta a um período anterior à domesticação. A única aproximação, estabelecida através da égua Pomba, recai para uma data ligada à idade Média. Este estudo comprova que o cavalo do Sorraia não é ascendente do Lusitano.
Está comprovada a Ancestralidade do cavalo Lusitano
É importante esclarecer que o DNA mitocondrial se transmite exclusivamente através da mãe ao seu descendente (as mitocondrias do espermatozóide dos mamíferos são geralmente destruídas pelo óvulo após a fertilização), o que permite a rastreabilidade tratada no presente trabalho, e como resultante desta exclusividade, a mesma não é posta em causa pelos cruzamentos inerentes à história do desenvolvimento da Península Ibérica, afectos à introdução de progenitores masculinos.
Estamos igualmente perante a maior evidência da falácia da conclusão principal do Livro do autor espanhol Juan Carlos Altamirano, “O Cavalo Lusitano: Origem e História”, onde é categoricamente afirmada a inexistência do Cavalo Ibérico, em particular do Puro-sangue Lusitano.
Afinal este estudo vem comprovar cientificamente que ainda vivem descendentes do cavalo Ibérico (raça autóctone), e que estes são exclusivamente afectos à população da raça Lusitana.
Está comprovada a Ancestralidade do cavalo Lusitano
Na minha opinião é fundamental nunca embandeirar em arcos de fundamentalismo, seja em que direcção for, e respeitar a histórica funcionalidade da raça, com uma ausência total de posições xenófobas relativamente às restantes raças Ibéricas, pois apesar da raça Lusitana constituir o reduto mais ancestral do tronco Ibérico (conforme ficou agora provado), este estatuto deverá ser utilizado numa perspectiva integracionista de união de interesses comuns, e nunca numa óptica de posições estéreis de separatismo e isolamento, perante as restantes raças pertencentes ao troco Ibérico, pois afinal estamos perante uma “rede” de vasos comunicantes.
Para os mais puristas, há que não esquecer que na iniciação do trabalho do Eng.º Manuel Veiga (princípio do séc. XX), o mesmo terá utilizado o cavalo “Jerez”, um puro Zapata da coudelaria de D. Vicente Romero y Garcia, para além de outros de origem diversa, como é do conhecimento da generalidade dos entendidos. Quem pretenda entender e aprofundar melhor o trabalho desenvolvido pelo Eng.º Manuel Veiga, terá de ler a obra do “Grande Mestre”, que foi Silvestre Bernardo Lima.
Há que ler e estudar afincadamente a história da raça, e colocar os olhos na dimensão do pensamento do Dr. Ruy D’Andrade e do Eng.º Fernando D’Andrade, que sempre entenderam e estudaram este tronco como um todo. A obra é vasta mas vale a pena percorrer o trilho literário.
A moda empurra com legitimidade, alguns dos criadores do cavalo Lusitano no rumo da dressage ou de outras disciplinas, no entanto, pode-se considerar um crime zootécnico, a possibilidade de que um bom cavalo de toureio, o expoente máximo actual do cavalo de combate, tenha uma morte reprodutiva, não nos cornos de um toiro, mas antes no crucifixo de um expediente administrativo, como a actual grelha disfuncional de pontuação de reprodutores Lusitanos. Qual o sentido político desta cruz? Até quando vamos continuar a assistir a mortes reprodutivas totalmente ausentes de sentido funcional?
Foto abaixo: Urânio II (criador: Manuel Assunção Coimbra - MAC), montado por Gilberto Filipe, enfrentando um toiro com 759 kg (veja-se a desproporção entre a massa do toiro e do cavalo), na última Feira da Moita. Este cavalo foi REPROVADO na admissão ao Livro de reprodutores no passado dia 16 de Outubro, em Coimbra, onde lhe foi atribuída uma nota de CINCO nos Andamentos. O que diria o Sr. João Núncio deste descendente do “Pincelim” MV, que tem andamentos para tourear toiros com quase o dobro do seu peso, mas que não tem andamentos e modelo que lhe permita entrar como reprodutor da raça?
URÂNIO II : Foto de João Silva. (Abrir em Pop Up)
Está comprovada a Ancestralidade do cavalo Lusitano
Foto: Pincelim MV com João Branco Núncio
Está comprovada a Ancestralidade do cavalo Lusitano
Será que o Pincelim MV do Sr. João Branco Núncio, nos dias que correm, sofreria igual REPROVAÇÃO por parte da grelha da APSL? Há que não esquecer as seguintes palavras referentes a este cavalo “Pincelim era naquele ano o cavalo mais pequeno da piara Veiga, e João Núncio adquiri-o por apenas sete contos por ser tão franzino, enquanto os seus irmãos foram vendidos por oito mil escudos.
Pincelim toureou 145 toiros durante oito anos em que presenteou o público com excelentes exibições. Depois de vários anos na reforma acabou por morrer de velhice em Alcácer do Sal.”
Como escreveu Karl Popper, “o conhecimento faz-se de conjecturas e refutações”, e do meu ponto de vista, o ser humano deveria procurar vivenciar estas ondas do conhecimento, com mais ou menos aprofundamento das matérias, mas sempre com clarividência suficiente para não embarcar em barcos de dogmas de sentido único, e ondas de nacionalismo de timbre passional.
Para terminar uma referência ao Padre António Vieira, que em 1670 dizia “sem sair [de Portugal] ninguém pode ser grande”. E acrescentava: “Nascer pequeno, e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas terras para a sepultura. Para nascer, pouca terra: para morrer, toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer, o mundo.”
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